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terça-feira, 1 de junho de 2021

1 de junho: Dia da Criança - Uma história intitulada «A galinha da fada madrinha»

Toda a gente, mas mesmo toda a gente, tem uma fada madrinha. Sem exceção.

E agora lá vem a pergunta:

- Será que eu tenho uma fada madrinha?

ou

- Mas para que é que serve uma fada madrinha?

ou ainda

- Posso pedir coisas à minha fada madrinha?

Pois é: uma fada madrinha não é para se andar a pedinchar presentes, nem para uma pessoa se andar a queixar

- Ai que dei um jeito aqui nas costas!

ou

- Esfolei o joelho a correr no recreio e está-me a arder...

nem

- O que eu gostava era que a mamã me desse um telemóvel novo. Ou um mano novo, tanto faz.

Nada disso.

As fadas madrinhas são uma coisa muito séria. Mesmo muito séria.

É verdade.

Por isso não se pode andar aí a fazer perguntas sobre as fadas madrinhas. E aqui não se vai dar respostas a nenhumas perguntas sobre as fadas madrinhas.

É bom que isto fique claro de uma vez por todas. Claro como água.

As fadas madrinhas vivem todas numa terra que é a terra das fadas madrinhas. É uma terra especial porque nela não há bichos com penas.

As fadas madrinhas detestam bichos com penas. Não é por lhes terem alergias nem nada disso, mas apenas porque as penas lhes metem impressão.

E também por outro motivo. É que as fadas madrinhas voam. Andam pelo ar de um lado para o outro a tomar conta dos seus afilhados e das suas afilhadas, a protegê-los a eles e a elas. Exceto quando se atrasam, porque uma das características das fadas madrinhas é não usarem relógio e serem muito distraídas, por isso atrasam-se com frequência. Ou seja, todos os dias.

Mas ainda há outro problema: quando andam a voar de um lado para o outro, às vezes as fadas madrinhas chocam com os pássaros, sobretudo com as pombas, que, além de não respeitarem ninguém, são   teimosas e estúpidas e não se desviam para deixar passar as fadas madrinhas. 

É bem conhecida de toda a gente a história da Silveirinha, a fada madrinha que, quando ia pelo ar, uma vez deu uma cabeçada numa águia careca, que são umas águias que há nos Estados Unidos, que para quem não sabe é um país que fica na América, que é um continente muito grande que era desconhecido de toda a gente, exceto dos americanos que lá viviam e a quem depois chamaram índios, antes de um senhor chamado Colombo lá ter chegado no ano de 1497, ou seja, há muito, muito tempo, e este país é formado por uns estados muito juntinhos, como se houvesse vários Portugal assim ao lado uns dos outros, ou uns por cima e outros por baixo, e que tivessem decidido juntar-se bem juntinhos para se sentirem mais aconchegados e terem mais amigos para brincar.

O que aconteceu foi que um dia a Clarinha, a fada madrinha, decidiu arranjar uma galinha.

- Uma galinha?

- Pode-se saber porquê?

- E para quê?

- Como é que se chamava a galinha?

Isto aqui antes foram as perguntas que podem ter passado pela cabeça a quem estava a seguir esta história.

Uma vez que naquela terra não havia bichos com penas, também não havia galinhas, apesar de as galinhas não voarem grande coisa e por isso não fazerem parte da bicharia mais detestada pelas fadas madrinhas. O resultado é que ninguém podia comer ovos estrelados, ou ovos mexidos ou cozidos, nem omoletas ou suflês, e muito menos bolos, que toda a gente sabe que precisam de farinha, açúcar e... ovos.

Então um dia apareceu  a galinha Susaninha lá na terra das fadas madrinhas. Era amarelinha e preta. No resto era como as outras galinhas, que toda a gente sabe como são.

Outra coisa que toda a gente sabe é que os bichos com penas são muito porcalhões e fazem cocó por todo o lado. Às vezes até largam umas bombas lá do alto.

Vai uma pessoa sentar-se numa esplanada e zás!, leva com porcaria na cabeça. Está uma pessoa a entrar em casa e pimba!, cocó pelas costas abaixo. Vai uma menina a sair toda bem vestida para um casamento ou um batizado, ou outra festa qualquer daquelas onde as meninas levam os seus melhores vestidos, e catrapus!, ias à festa, não ias?, pois agora já não vais com essa roupinha.

Por estas e por outras a galinha Susaninha tinha a sua casa de banho privativa, que é assim uma coisa especial só para a pessoa usar, neste caso não se trata de uma pessoa mas de uma galinha, mas vai dar ao mesmo.

O resultado disto tudo é que a galinha Susaninha era muito asseadinha, ou seja, era muito limpinha. Isto tanto quanto uma galinha consegue ser, que é mais do que um elefante mas menos do que uma lagartixa, mais do que um porquinho da Índia mas menos do que um ornitorrinco, mais do que um hipopótamo mas menos do que uma formiga.

E era asseadinha porque as suas instalações sanitárias eram limpas todos os dias, aliás várias vezes por dia, porque as galinhas são um bocado descuidadas e quando lhes dá vontade nem sempre conseguem ir a correr para a sanita e por isso lá vai disto e fazem aqui e acolá sem se ralarem muito com as consequências.

Há ainda mais um problema: é do conhecimento geral que as galinhas se recusam a usar papel higiénico. Quem já foi fazer compras a um supermercado terá provavelmente reparado que no local onde o papel higiénico está à venda nunca se viu papel higiénico para galinhas. Nunca. Nem um rolo para amostra. Nadica de nada.

Por tudo isto, quando foi anunciada a vinda da galinha Susaninha, esta foi a reação das fadas madrinhas:

- Uma galinha!? - Exclamaram em coro, que é quando várias pessoas falam ou cantam ao mesmo tempo, exclamaram em coro, pois, a Vianinha, a fada madrinha, mais a Joaninha, a fada madrinha, e ainda a Luizinha, a fada madrinha. Para já nem falar da Guidinha, a fada madrinha, da Rosinha, a fada madrinha, ou da Fatinha, a fada madrinha.

- Faz-se uma canja - afirmou a Mariazinha, a fada madrinha.

- Uma cabidela - sugeriu a Francisquinha, a fada madrinha, prima da Mariazinha, a fada madrinha.

- Muamba, uma muamba era o que me apetecia! - Exclamou a Carlinha, a fada madrinha, que há algum tempo que não voava para África e andava com saudades da comidinha daquelas bandas.

- Nada disso. - Rematou a Clarinha, a fada madrinha. - A galinha Susaninha é minha convidada, por isso eu é que decido.

Por estas e por outras, a vida da galinha Susaninha em casa da Clarinha, a fada madrinha, era uma vida normal.

Claro que não ia à escola, porque as galinhas já cresceram a saber tudo o que uma galinha precisa de saber, isto para além de terem um emprego para o resto da vida, que é o mesmo para todas as galinhas, por isso escusam de estudar para serem eletricistas ou esteticistas, para serem cozinheiras ou passarinheiras, ou outra coisa qualquer. Nunca se viu uma galinha eletricista. Diga-se que também nunca se viu uma galinha canalizadora ou agente da polícia judiciária, e muito menos vestida de bombeira. Mas há quem diga que há sempre uma primeira vez para tudo, por isso nunca se sabe.

Corre para aí a história de umas galinhas que eram artistas de circo, mas tinham-lhes roubado os cartões de cidadão e os patrões eram uns grandes aldrabões e nunca lhes tinham feito os descontos para a Segurança Social, que é uma coisa obrigatória para toda a gente que trabalha para que, mais tarde, quando forem velhinhos, possam receber uma reforma.

Foi por isso que as galinhas artistas nunca conseguiram provar nada e em vez de se reformarem tiveram que voltar ao antigo emprego de galinhas normais.

De vez em quando, mas só de vez em quando, para não se cansar, a galinha Susaninha punha um ovo.

E era uma festa em casa da Clarinha, a fada madrinha.

Antes, como não havia galinhas na terra das fadas madrinhas, os únicos ovos que havia eram a fingir, assim umas coisas com o formato de um ovo que davam para fazer uns truques de magia, transformá-los em papelinhos brilhantes, ou em lencinhos coloridos, ou em bolinhas de berlindes ou outra coisa qualquer. Tal como as varinhas de condão que as fadas madrinhas usam.

- Varinhas de condão?

- O que é um condão? Uma coisa de comer? Com açúcar e tudo? Azul, amarela, verde, vermelha, cor-de-rosa, laranja, lilás, beje, grená, ciano, magenta, púrpura, carmim, turquesa, fúcsia, e muitas mais cores, desde as mais comuns às mais raras e estranhas?

Isto é o que pode passar pela cabeça de quem nunca viu sequer uma varinha de condão. Nem umazinha para amostra.

Condão é uma palavra estranha. Como muitas outras. Já alguém pensou bem na palavra bidé? Mais estranha que isto há de ser difícil.

Condão quer dizer um poder ou uma capacidade, por exemplo quando uma pessoa tem o condão de fazer rir as outras, ou de as fazer felizes, ou ainda, como no caso das varinhas, um poder especial, mágico, sobrenatural, que pode fazer o bem ou o mal, isto se pensarmos que pode haver fadas mázinhas ou bruxinhas malandrinhas.

Claro que nem com varinhas de condão as fadas madrinhas conseguiam fabricar ovos. Por isso comiam tartes de maçã atrás de tartes de maçã.

- Tartes de maçã?

Toda a gente sabe, se não sabe fica a saber, que as tartes de maçã não levam ovos e, como as fadas madrinhas não tinham ovos dos verdadeiros, só tinham ovos de brincar, era impossível cozinhar certas coisas.

Era por isto que, quando a galinha Susaninha punha um ovo lá em casa, Clarinha, a fada madrinha, dava uma grande festa, porque um único ovo da Susaninha dava para fazer 310 omoletas, 152 ovos estrelados, 575 ovos mexidos, 623 suflês, e 3 mil e tal bolos variados. E ainda sobravam claras para fazer 377 suspiros e gemas para 498 musses de chocolate, isto se não se tivessem esquecido de comprar umas tabletes de chocolate, é claro.

Parece muita coisa com um só ovo, mas não é, não, porque é preciso não nos esquecermos de que estamos na terra das fadas madrinhas, que é uma terra diferente das terras das pessoas normais, daquelas que toda a gente encontra no dia-a-dia.

Ainda por cima temos de imaginar que as fadas madrinhas são muito pequeninas, só se veem com um microscópio, que é um aparelho usado pelos cientistas para verem coisas muito, mas mesmo muito pequenininhas, e também é por isso que poucas pessoas disseram que já tinham visto alguma vez uma fada madrinha, de tão pequeninas que são, mais do que uma mosca, que se fossem do tamanho de moscas se calhar as pessoas davam-lhes com um mata-moscas, ia ali uma coisa a voar e dei-lhe, zás, pás, se calhar era um mosquito ou uma melga, se fosse mosca ia a zoar, se fosse mosquito ia a zumbir, que é o barulho que fazem as moscas e os mosquitos, que são sons muito diferentes, é verdade, sim senhora, ou sim senhor, se fosse pato grasnava, se fosse urso bramia, se fosse cavalo relinchava, se fosse elefante bramia, se fosse camelo blaterava, vejam só, que palavra estranha, blaterar, mas também não é de estranhar, porque os camelos são bichos muito estranhos, e por aí fora, se agora nos puséssemos aqui a contar o que faz a bicharada toda ficávamos aqui até ao século vinte e dois, que é o que vem a seguir a este em que estamos agora, que é o século vinte e um, em números romanos escreve-se com um X, que quer dizer dez, mais outro X, dois xis seguidos querem dizer vinte, e um I, que quer dizer um, e outro I, e um mais um significa dois. Então vinte e dois: Xis, xis, i i. Se fosse vinte e um seria XXI, dois xis e um i. Tudo escrito com letras maiúsculas, que é assim que se deve escrever os números romanos, que não usavam o zero porque não o conheciam, foram os árabes que o inventaram, e quem sabe fazer contas pode imaginar o que seria somar, diminuir, multiplicar ou dividir sem usar o zero. Uma confusão, com certeza. Ai não que não era.

A festa ia rija em casa da Clarinha, a fada madrinha, pudera, com tanta papa e tanta bolaça, não era para admirar, pois então, e ainda há mais uma razão de que não se falou aqui, se calhar ficou esquecida no meio de tanta conversa, é que as fadas madrinhas são muito comilonas, comem muito, o que não é assim muito saudável, e deve ser por isso que na terra das fadas madrinhas existem 723 Spas, que são assim uns lugares com águas que fazem bem à saúde, com massagens, tratamentos à pele.

Isto para além da mania das dietas. As fadas madrinhas passam a vida a falar de dietas, a discutir dietas, a pensar em dietas ou a ler sobre dietas. Já a fazer dietas nem por isso, porque já dissemos que as fadas madrinhas são muito gulosas e comilonas. E também já sabemos que são muito esquecidas, por isso quando vão comer depois nem se lembram de fazer dieta.

E é preciso não esquecer que as fadas madrinhas são muito vaidosas e gostam muito de parecer bem, principalmente porque passam a vida a criticar-se umas às outras, estás assim e estás assado, pareces mais magra, tenho a impressão que estás mais gorda,  o verde fica-te mal, o azul fica-te mesmo mal, o encarnado então é melhor nem dizer nada, de amarelo pareces um canário, se calhava alguma vestir-se de cor de laranja lá vinha um "Olha, vai ali uma laranja, agora até tem perninhas e anda para a frente e para trás".

Imagine-se que até os bolos das festas em casa da Clarinha, a fada madrinha, eram objeto de apreciações críticas:

- Outra vez bolo de chocolate? - dizia uma.

- Então quando é que temos um bolinho de amêndoa ou de noz? - dizia outra.

- Ou uma tartezinha recheada? Ou um docinho de ovos? Uns ovos moles? - sugeriam outras.

E de vez em quando lá vinham uns bolos de amêndoa ou uns bolos de noz, estes mais raros que aqueles, umas tartes de ovos, uns ovos moles, até bolos de gelado, de amendoim, de ananás, de laranja, de quivi, de cenoura, de figo, de tangerina, de pêssego, de sardinha...

- De sardinha? Bolo de sardinha? Que nojo!...

Bolo de sardinha, pois. Foi uma experiência. Para variar. Mas é preciso que se diga que não foi lá muito apreciado.

Assim se iam passando os dias na terra das fadas madrinhas. Uns dias eram de festa, outros assim-assim, e outros ainda nem sim nem não, e a galinha Susaninha lá ia pondo um ovo de vez em quando, e a Clarinha, a fada madrinha, ia fazendo bolos e outros cozinhados para as gulosas das fadas madrinhas que viviam ali perto da Clarinha, a fada madrinha.

O pior é que iam ficando cada vez mais gordas. E já tinham dificuldade em voar.

Mas isso é outra história. E fica para outra vez.

João Carlos Rezendes Costa



   

 

terça-feira, 2 de junho de 2020

A «Iniciativa Educação» e a «História do Coelhinho Branco»


A Iniciativa Educação, Teresa e Alexandre Soares dos Santos, uma iniciativa que "pretende ajudar a promover o sucesso dos jovens" e homenagear os pais dos progenitores, publicou uma história lida e ilustrada no seu portal e no canal YouTube, que pode ser vista aqui.


Este programa possui diversas iniciativas, entre as quais o Programa AaZ, Ler Melhor, Saber Mais, que começou a publicar vídeos de apoio à leitura destinados aos mais pequenos, o programa Ser PRO, destinado a constituir parcerias entre as escolas e as empresas, ou ainda o programa ED-ON, com artigos sobre educação.
A primeira história escolhida foi «A História do Coelhinho Branco», de Adolfo Coelho e pode ser vista, com outras histórias, no canal do YouTube criado pela instituição. A direção destas inciativas cabe, entre outros, ao professor Nuno Crato.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Dia do Abraço

Logo, logo vamos dar aquele abraçoooooooooooooooooooooooooooooo!!!!

Agora, sugerimos a leitura desta história! "O abraço perfeito"


...e ouvir contar a história!
 



quinta-feira, 14 de maio de 2020

Dia Internacional da Família

15 de maio - Dia Internacional da Família

A Assembleia Geral das Nações Unidas - ONU , no ano de 1993, declarou o dia 15 de maio como o Dia Internacional da Família. A partir desta data,  comemora-se este dia para alertar para a importância do papel da família na sociedade, para chamar a atenção sobre questões do dia a  dia das famílias. Neste dia, também se reforça a mensagem do amor, do respeito, da união que é preciso, para que exista um bom relacionamento entre todos os elementos que fazem parte de uma família.

Fica aqui uma história, para lerem em família...


E para saberes mais sobre a ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA, vê este vídeo.






segunda-feira, 4 de maio de 2020

Sábios como camelos

Podes ouvir a história Sábios como camelos.

 É um texto do livro Estranhões & Bizarrocos de José Eduardo Agualusa  .


domingo, 5 de abril de 2020

Histórias lidas - 3

   
Desculpa, por acaso és uma Bruxa! - Emily Horn & Pawel Pawlak


Numa casa muito estranha, de António Mota e Daniel Completo


O incrível rapaz que comia livros, de Oliver Jeffers


Quando a mãe grita - de Jutta Bauer
Histórias infantis em português


Hipólito, o filantropo


A maior de todas as rãs, de António Torrado

  
  

quarta-feira, 18 de março de 2020

Fantochada livresca

Para entreter, partilho aqui um texto que escrevi a propósito de livros e bibliotecas, e que se destinaria a ser representado por fantoches, embora possa sê-lo de outra maneira. Chamei-lhe «Fantochada livresca».
  
    

Fantochada livresca
   
   
(Cenário indiferenciado. Mas em fundo pode ver-se estantes com livros, como se fosse uma biblioteca.
Entram duas figuras. Uma delas traz um livro.)

Livroso - Isto que eu trago aqui é um livro.
Alivrado - Um livro?
Livroso  - Um livro, sim.
Alivrado - Ah...
Livroso  - O livro tem uma capa.
Alivrado - Uma capa? Eu pensava que a capa era para a chuva.
Livroso  - Pois. Tal como a capa para a chuva protege as pessoas da chuva, a capa do livro serve para o proteger.
Alivrado - Da chuva?
Livroso  - De tudo um pouco. O livro tem folhas...
Alivrado - Como as árvores?
Livroso  - Mas são de papel. E estão todas juntinhas. Cada folha tem duas páginas.
Alivrado - Pajens?
Livroso  - Páginas. De um lado ímpar, do outro par. As páginas ímpares são sempre do lado direito, e as pares do lado esquerdo.
Alivrado - Ímpar?! Par?!
Livroso  - Impares são números como 1, 3, 5, 7, 9, 11, e por aí fora. Pares são números como 2, 4, 6, 8, 10, 12, e por aí adiante.
Alivrado - Então 100 é um número quê? E mil? E 99?
Livroso  - 100 e mil são números pares. 99 é um número ímpar.
Alivrado - Ah...
Livroso  - As páginas dos livros podem ter letras, desenhos, fotografias, etc. E são impressos.
Alivrado - Impre...quê?
Livroso  - Impressos. Quer dizer que as folhas de papel entram numas máquinas especiais e levam tinta.
Alivrado - Ahhhh... Como numa impressora de computador?
Livroso  - Mais ou menos. Mas estas impressoras são máquinas muito grandes, que imprimem muitas folhas muito depressa, umas a seguir às outras.
Depois são dobradas, para fazer cadernos. Depois junta-se vários cadernos e faz-se um livro. Mas não é ao calhas. Têm de seguir uma ordem, que é a dos números das páginas, porque elas são numeradas para se saber qual a sua ordem.
Alivrado - Deve ser bonito ver.
Livroso  - Sim, mas um bocadinho barulhento.
Bem, na capa do livro há um título.
Alivrado - E o que é isso?
Livroso  - É o nome que a pessoa que escreveu deu ao livro. Deve ser imaginativo, original...
Alivrado - Original?...
Livroso  - Sim, especial, para não haver outro igual. Para todos os livros terem títulos diferentes. Como as pessoas, que são todas diferentes, especiais...
E na capa também deve aparecer o nome do autor.
Alivrado - E quem é esse?
Livroso  - É a pessoa que escreveu o livro ou as pessoas escreveram o livro, porque pode ser mais do que uma. Outras vezes uma escreveu a história ou o poema, e outra fez os desenhos. Mas às vezes há livros escritos por muitas pessoas, que não têm apenas um autor. Então pode haver um diretor, ou um organizador, que é a pessoa mais importante.
Alivrado - Tanta gente...
Livroso  - Isto acontece às vezes nos dicionários ou nas enciclopédias...
Alivrado - Dicionários?... Enciclo...quê?..
Livroso  - Enciclopédias. São livros que falam de muitas coisas, normalmente numa ordem por assuntos que começa pela letra A, depois bê, a seguir cê, e por aí fora até ao zê.
Os dicionários também começam pelo A, como as enciclopédias, mas os dicionários são sobre as palavras de uma língua, por exemplo o português, ou dizem como se escrevem as palavras em português na lingua inglesa, por exemplo, ou em francês, em alemão, em castelhano ou italiano...
Alivrado - ... em russo, em chinês...
Livroso  - Sim. E também há dicionários especiais sobre um assunto só, que tentam explicar todas as palavras sobre esse tema. Por exemplo sobre ciências, sobre história de Portugal, ou até sobre futebol.
Alivrado - Que engraçado. Não sabia...
Livroso  - Há livros sobre muitas coisas. Uns têm poesia, outros têm desenhos, que podem ser de banda desenhada, outros contam histórias, que podem ser pequeninas, a que damos o nome de contos, outros podem ser maiores, e a esses chamamos romances, que podem ter muitas páginas, alguns até mais de mil...
Alivrado - Mil?!... Nunca mais acabava de ler um livro assim... Acho que nem tinha coragem de começar...
Livroso  - Há livros tão interessantes que quando os começamos a ler nunca mais queremos parar. E ficamos cheios de pena quando acabamos...
Alivrado - Ficamos tristes?...
Livroso  - Tristes, alegres, mais espertos, de tudo um pouco. Os livros são assim mesmo... Há livros para todas as pessoas.
Alivrado - Mas é preciso saber ler...
Livroso  - Sim, é preciso. Para ler livros e outros documentos. Para não sermos enganados. Temos que saber ler um pouco de tudo... mapas... atlas...
Alivrado - Atlas? O que é isso?
Livroso  - Atlas são livros com mapas. Por exemplo, um atlas da Europa traz mapas de todos os países da Europa. Se for um atlas de Portugal pode trazer mapas de todas as regiões de Portugal. Até da Madeira e dos Açores.
Alivrado - Deve ser bonito ver esses mapas todos...
Livroso  - Sim. E muito interessante. Mas estávamos ainda a falar da capa dos livros. Tem o título, o nome do autor, às vezes umas imagens...
Alivrado - Já vi algumas bem bonitas...
Livroso  - Sim. A capa de um livro é importante. É a primeira coisa que vemos quando os livros estão nas livrarias. Ou nas páginas da Internet.
Alivrado - Mas nas bibliotecas nem por isso...
Livroso  - Algumas estão à vista. Por exemplo para chamar a atenção para esse livro...
Alivrado - Mas da maior parte só se vê o lado...
Livroso  - Chama-se lombada. Nessa parte do livro está normalmente o título e o autor. Aí é que as bibliotecas colocam uns números e umas letras, e uma fita de cor.
Alivrado - Já reparei. É p'ra quê?
Livroso  - Os números são um código internacional de bibliotecas, que se chama CDU: Classificação Decimal Universal.
Alivrado - O que é isso?
Livroso  - Serve para todas as bibliotecas guardarem os livros da mesma maneira. Por exemplo, se uma biblioteca tem um livro de vulcões, esse livro será sempre guardado na classe 5, onde também deverão estar outros livros de ciências, de matemática, sobre animais... e muitos outros sobre temas parecidos. Mas se for um livro com um conto, deverá ir para as estantes da classe 8. Se for um livro sobre música ou futebol, deverá ir para a classe 7. Depois estes números podem ter outros a seguir, que ainda dão indicação do país do escritor, por exemplo, ou se um livro de animais é sobre peixes, ou sobre aves, ou sobre gatinhos. E muitas outras coisas.
Alivrado - Que grande confusão!...
Livroso  - Pode parecer confuso, mas com experiência e com a prática as pessoas habituam-se.
Alivrado - E as letras?
Livroso  - Também servem para se arrumar o livro ou para se saber onde é que ele está. As letras usadas são as três primeiras letras do apelido do autor, seguidas das três primeiras letras do título. Os artigos não contam.
Alivrado - Artigos?...
Livroso  - Sim, os artigos definidos, como O, A, OS, AS, e os artigos indefinidos, como UM, UMA, UNS, UMAS.
Vamos pensar num livro muito conhecido, com o título A menina do mar, escrito por uma senhora portuguesa chamada Sophia de Mello Breyner Andresen. Podemos dar-lhe o número 8, porque é literatura, e depois as letras AND e MEN, AND de Andresen e MEN de menina. Portanto, o livro pode ficar com a classificação 8 AND/MEN. A este conjunto de números e letras dá-se o nome de cota.
Alivrado - Cota?! Cota não é o que se chama uma pessoa velha?!
Livroso  - Isso é uma maneira de falar. E não se deve dizer, porque mostra falta de respeito pelos mais velhos.
Alivrado - Pronto. Não digo. Então cota é dos livros. E a fitinha de cor?
Livroso  - Exatamente. A cota é esse código, que vai indicar onde o livro está arrumado nas estantes.
A fita de cor é uma ajuda. As bibliotecas costumam escolher uma cor para cada uma das classes de números das cotas.
Alivrado - Mas quantas classes há?
Livroso  - Há nove classes. A classe zero, a classe um, a classe dois, a classe três, a classe cinco, a classe seis, a classe sete, a oito e a nove. Cada classe diz respeito a um conjunto de assuntos semelhantes ou com qualquer coisa em comum entre si. Por exemplo, a classe sete abrange as artes, em geral; ou a classe dois, que abrange todas as religiões, desde as que já desapareceram até às que ainda existem.
Alivrado - E a quatro? Não falaste da quatro.
Livroso  - Hum. Estavas com atenção. A quatro ainda não foi usada. Está guardada para o caso de vir a ser precisa no futuro.
Alivrado - E as cores? As cores servem para quê?
Livroso  - Cada biblioteca dá uma cor a cada uma das classes. Mas as cores variam de biblioteca em biblioteca.
Alivrado - Porquê?
Livroso  - Porque não há uma regra fixa. Não está escrito em lado nenhum quais devem ser as cores obrigatórias. Assim, cada biblioteca escolhe as suas. Por exemplo, a cor azul numa biblioteca pode ser de literatura, mas noutra pode ser de ciências.
Alivrado - Eu gosto muito de cor de laranja.
Livroso  - Às vezes também se usa. Mas os livros também levam outro número.
Alivrado - Mais um?
Livroso  - Sim. Este número é um número de registo, e será diferente para todos os livros. Mesmo que haja dois livros iguais, com o mesmo título e o mesmo autor, e a mesma cota, têm que ter números de registo diferentes.
Alivrado - Porquê?
Livroso  - Para a biblioteca saber onde está e quem é que levou aquele livro em especial, e para fazer a estatística.
Alivrado - Esta... quê? O que é isso?
Livroso  - É uma contagem especial que se faz, para se saber quantos livros foram emprestados, requisitados é a palavra que se usa, quantas pessoas os levaram, como eram essas pessoas...
Alivrado - Como eram as pessoas?!...
Livroso  - Sim. Se eram meninos ou meninas, em que ano andam, se foram adultos, ou pais de alunos, isto no caso das bibliotecas das escolas, claro, que género de livros requisitaram, se foram romances ou poesia, se foram livros de estudo, ou mesmo dvds de filmes ou documentários, revistas ou jornais, se usaram os computadores e quantas vezes, etc.
Alivrado - Credo! Tantas contas! Eu ficava maluco! E para quê?
Livroso  - As estatísticas servem para se saber quais os livros que interessaram mais, e nesse caso a biblioteca pode tentar comprar mais livros desses, porque são os que interessam mais às pessoas.
Ou ainda para saber quem usou os computadores e para quê, ou quais foram as alturas do dia com mais gente a usá-los. E as estatísticas também são para os responsáveis pela biblioteca saberem se o número de leitores aumentou ou diminuiu e para mostrar a quem manda, um director, por exemplo, ou um grupo de pessoas responsáveis, o que se passou ao longo de um ano. Chama-se a isso prestar contas aos responsáveis, seja por uma escola ou por uma câmara municipal, ou outra organização.
Alivrado - Mas isso deve dar muito trabalho...
Livroso  - Dá trabalho, sim, mas quem trabalha numa biblioteca já está habituado.
Alivrado - Eu acho que não me habituava...
Livroso  - Quem sabe?
Mas vamos voltar a falar do livro. Deste livro. (Mostra o que traz consigo.) Além dos livros e dos autores, o livro também mostra na capa, quase sempre, o nome da editora.
Alivrado - Editora?! O que é isso?
Livroso  - A editora é a empresa que publicou o livro. Que o mandou imprimir, que contratou o escritor ou o desenhador, ou que mandou traduzir o livro...
Alivrado - Traduzir o que é?
Livroso  - É arranjar pessoas que, por exemplo, mudam um livro de inglês para português, ou de francês para português.
Alivrado - Mas essas pessoas sabem essas línguas?...
Livroso  - Sim. E têm que as saber muito bem. E também saber português, a nossa língua, muito bem, porque não é fácil traduzir de uma língua para o português. Dá muito trabalho.
Alivrado - Eu não era capaz. Não sei francês... Ah, mas em Inglês sei contar até dez e dizer o meu nome... My name is Pedrinho Luisinho Alivrado.
Livroso  - Não sabes Frncês, mas podes aprender. Essa e outras línguas. E, sem os tradutores, os portugueses que não sabem outras línguas nunca poderiam ler livros de escritores estrangeiros.
Alivrado - E os desenhos também precisam disso, de traduzir?... De tradutores?
Livroso  - Se tiverem palavras, sim, como é o caso da banda desenhada e de muitos outros livros que têm desenhos ou ilustrações. Ou fotografias.
Alivrado - Isto dos livros é muito complicado...
Livroso  - Não é fácil, mas todas as atividades e profissões tem coisas complicadas. E consegue-se ultrapassar as dificuldades com trabalho e com experiência.
Alivrado - Talvez... Mas ia ser difícil para mim...
Livroso  - Agora, pode ser que sim, mas mais tarde... quem sabe?...
Voltando ao livro... Na contracapa...
Alivrado - Contra...quê?
Livroso  - A contracapa é o nome que se dá à capa da parte de trás do livro. A capa é só a parte da frente.
Na contracapa às vezes aparece um pequeno resumo do livro, ou uma crítica, ou uma referência à vida do escritor e aos seus livros, a sua obra, e também é normal haver um código de barras...
Alivrado - Como nas compras do supermercado?
Livroso  - No mesmo género, sim, e também é um número muito comprido, que às vezes também tem uma letra, e que se chama ISBN.
Alivrado - I ésse...quê?
Livroso  - ISBN. É um código internacional dos livros, que pertence só àquela edição. Se o mesmo livro for editado por outra empresa, outra editora, ou em anos diferentes, deverá ter um ISBN diferente. Este código serve para não confundirmos livros diferentes e varia de país para país. Parte dos números indica o país, outra parte a editora, e outra parte o livro em especial.
Alivrado - Mas o que quer dizer i esse bê...?
Livroso  - ISBN. É inglês. Quer dizer International Serial Book Number. O que significa Número de Série Internacional do Livro. É uma espécie de matrícula de automóvel para livros. Não há dois iguais.
Alivrado - Não há dois iguais? Ena! Então deve haver muitos números.
Livroso  - Sim. Muitos. E todos diferentes.
Quando abrimos o livro já sabemos que encontramos páginas. Mas no princípio do livro há quase sempre uma folha de rosto.
Alivrado - Rosto?! Como a cara?!...
Livroso  - Não é bem a mesma coisa. A folha de rosto dos livros traz outra vez o título, que pode ter subtítulos...
Alivrado - Subtítulos?
Livroso  - Sim. São uma espécie de nomes menos importantes do livro. Na folha de rosto deve vir ainda o nome do autor ou autores,de quem escreveu o livro, do tradutor, que é a pessoa que muda de uma língua para outra quando o livro é traduzido de outra língua, por exemplo de Inglês para Português, o nome da editora, que é a empresa que trata de imprimir e colocar o livro à venda, e às vezes o ano em que o livro foi editado.
Na parte de trás dessa página vem muitas vezes uma ficha técnica desse livro.
Alivrado - Ficha técnica?
Livroso  - Vem o título original do livro, se for um livro traduzido, o ano da edição original, no caso de o livro ter sido publicado noutro ano ou muitas vezes em  vários anos, porque há livros que são muito procurados e que esgotam as edições e é preciso voltar a publicá-los nos anos seguintes...
Alivrado - Como aquele que disseste há bocado, A Menina do mar...
Livroso  - Sim, como esse, que tem sido lido e tem divertido muitas pessoas durante muitos anos.
Mas a ficha técnica pode trazer ainda a morada da editora, o nome de outros colaboradores, por exemplo de quem fez a capa ou uma ilustração, o nome e a morada de empresa que imprimiu o livro, o número do Depósito Legal...
Alivrado - Depósito quê?
Livroso  - Depósito Legal. É um número que se tem quando o livro é registado na Biblioteca Nacional. E não só os livros, mas também todos os dvds, jornais, todas as revistas. As pessoas ou empresas que publicam em Portugal têm que entregar um número de exemplares, sejam livros ou revistas, dvds ou jornais, na Biblioteca Nacional. Vamos chamar-lhe BN, para ser mais simples. É o que se chama Depósito Legal. A BN dá então um número a esse título, que costuma ter também o ano em que o depósito foi feito. Por exemplo, 423/2017. Este número significa que este título foi registado em 2017 depois de 422 títulos antes dele.
Alivrado - A tal bê éne deve ser muito grande, para conseguir guardar isso tudo. E o que fazem a esses livros todos? E dvds, jornais, revistas... Guardam tudo?
Livroso  - Guardam alguns. Outras cópias mandam para outras bibliotecas.
Alivrado - Ahhhh... Para as escolas!...
Livroso  - Para as escolas, não.
Alivrado - Não?!
Livroso  - Pois não. Há tantas escolas com bibliotecas que as cópias não chegavam para todas. Nem para as bibliotecas de todas as câmaras municipais do país inteiro.
Bem. Para além da ficha técnica, alguns livros trazem índices.
ALivroso  - Que palavra esquisita! Parece índios.
Livroso  - A palavra é índice. Um índice é uma espécie de lista do que está no livro, com a indicação do número das páginas onde podemos encontrar o assunto. Também pode dizer em que página começa um capítulo.
Alivrado - Ai, tantas palavras. Agora é capítulo. O que é o capítulo?
Livroso  - É uma parte de um livro. O número de páginas que cada capítulo tem pode variar muito. E às vezes cada capítulo de um livro é dedicado a um assunto diferente. Se, por exemplo, uma obra contar várias lendas diferentes, cada lenda pode estar num capítulo separado.
Alivrado - Ah! Já percebi.
Livroso  - Mas também pode haver índices de assuntos ou de nomes de pessoas de que se fala. Ou de ilustrações. Ou fotografias. Ou mapas. Ou países. Imagina que, num livro sobre animais, queres saber onde é que aparecem os cães. Vemos o número da página no índice e abrimos a livro na página que nos interessa, sem andar para trás e para a frente à procura. Pode haver muitos índices diferentes. Depende dos livros.
Alivrado - Assim é mais fácil.
Livroso  - Pois é.
Mas o livro tem muito mais coisas. Há muito mais palavras que se pode aprender sobre livros.
Alivrado - Ainda mais?
Livroso  - Sim. Há palavras como badanas, orelhas...
Alivrado - Orelhas?!...
Livroso  - Sim. E sobrecapa, miolo ou refilo, cabeça de página, nervuras, canaletos,  cabeceados, coifa, e outras palavras. E há livros encadernados, de capa dura, brochados...
Alivrado – Ih, tantas coisas!... Mas que difícil... Nunca iria ser capaz de saber isso tudo. Tantas palavras só sobre um livro...
Livroso  - É verdade. Mas quem sabe? Ainda podes vir a ser responsável por uma biblioteca...
Alivrado - Pois é... Quem sabe? Tudo é possível.
Livroso  - Que grande verdade.

(O pano fecha.)

FIM
Autoria: João Carlos Rezendes Costa
Agosto, 2017